sábado, 5 de setembro de 2009

.38

Com a grana da última apropriação resolvi comprar outra arma. Sugestão do Japonês. Parceiro de hospício, ele também aplica uns golpes. Antes dele viajar para o Corpus Christ, eu fui até o boteco dele bebericar um pouco. Cheguei com a arma na cintura. Realmente, como ele mesmo disse, o trabuco não faria tanto volume assim. Conversamos até o estabelecimento fechar. Escorei no balcão e derramei a arma na frente dele. Ficou ali olhando. O cara era tarado por armas, mulheres, carros etc. Ele quis tocar no ferro, mas eu peguei o 38 antes e apontei para ele. Sorriu, perdido. O tiro vazou o olho esquerdo. Saquei toda a grana do caixa e desci a porta de metal. Colei um aviso. "De luto."

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Esperando o troco

Eu tenho coração, mas o cara me pediu apenas um real. "Um real, senhor.", ele disse. Eu entreguei dez reais na mão dele e ele sorriu vazio - não tinha nenhum dente na boca - e agradeceu. Eu fiquei lá, parado na frente dele. Insistiu no agradecimento, com mais ênfase na palavra "Deus". Que esperava o meu troco foi o que falei. Espantado, ele me questionou com os olhos. Retruquei com os olhos também. Bufou. Eles sempre bufam quando são contrariados. Parecia que não tinha troco. De repente, abriu uma bolsa. Resumindo o conteúdo que eu consegui enxergar: 1) um celular (melhor que o meu); 2) um relógio digital japonês (eu tenho um analógico de 30 contos); 3) uma dentadura (não preciso explicar); e um maço de notas (de fora para dentro, notas de 50, 20, 10, 5 e 2 reais). Separou o dinheiro rapidamente, como um caixa de banco bem experiente. Em menos de cinco segundos tava eu parado em frente a um farsante com nove reais na mão. Puxei minha arma e falei: "Passa tudo pra cá!". É, eu tenho coração. E uma calibre .22 para o caso de encontrar um marginal no centro da cidade.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Telefone mudo

Esperou alguns minutos. Saiu de casa para encontrar um sinal. Retornou mais vermelho do que saiu. O telefone estava mudo. Afinal, para que pagava suas contas em dia, se não conseguir usar o telefone celular? Procurou a Ana. Garantiam que ela podia ajudá-lo. Não ajudou. Do outro lado da linha só ouvia embromação, a mesma que ele próprio já ouvira. Não davam muita trela para ela. Não demonstrava muita autoridade. Quando digo "Ana" me refiro à Anatel, aquela agência governamental, uma das tantas criadas no desgoverno daquele ex-presidente, um daqueles "fernandos" que desocupou o governo enquanto desgovernava o país. Ainda dizem que a telefonia melhorou. Não sei onde. Deve ser na África, com ajuda dos chineses. Estes vão dominar o mundo. De um jeito ou de outro. Estão exportando gente. Antigamente eu só via japoneses nas ruas. Hoje tem mais chinês no samba. Um fato interessante é que eles entram no Brasil e não falam uma palavra sequer. Eu vejo alguns no centro. Eles caminham de cabeça baixa. Nunca abordei nenhum. Talvez seja preconceito meu. Quem sabe eles falem melhor o português do que eu. Talvez sejam de Macau. Talvez possuam telefones celulares que funcionem. Eu, não. Continuo com meu telefone mudo, ouvindo a velha embromação da empresa de telefonia Oi, Telemar, Tele Norte Leste.

sábado, 29 de agosto de 2009

Era uma fenda

Morte natural? Tudo bem que não havia sangue, nem sinais de violência. Breno estava lá, "sentado" na velha poltrona do papai. O jornal nas mãos. Nenhum sinal de vida e, como disse anteriormente, nenhum sinal de violência. Estava lá, "lendo" o jornal. Paralisado. A televisão poderia estar ligada, mas era domingo. Nada de bom passa aos domingos na televisão. Estranho que a família tenha visitado o velho Breno num domingo. Ele não suportava a família. Afastou-se de tudo e de todos. Diziam-no "excêntrico". Agora, estava lá, imóvel, lendo um jornal do qual não era assinante. Fazia questão de sair pela manhã de casa e caminhar até a banca que ficava ao lado da padaria. Um neto curioso foi mexer no "corpo". Achou uma fenda atrás da cabeça do vovô. E ele disse "fenda". Ninguém sabia que o moleque falava, quanto mais que sabia o que era uma "fenda". Por incrível que pareça, a fenda, por mais que o nome suponha uma coisa violenta, foi cravada na cabeça do velho Breno de forma "limpa". Como se estivesse ali a vida toda. Não havia sangue nas beiradas. Até olharam pela sala para achar a "arma do crime", mas nada. Um genro, o que Breno menos gostava, supôs que o "assassino" tivesse levado consigo a "arma do crime". Resolveram chamar a polícia. No que tocaram as mãos no telefone para chamar os tiras ouviu-se um grunhido. Todos silenciaram para descobrir de onde vinha o som. No canto da sala, Breno levou as mãos ao canto da boca e limpou uma baba que começara a cair. Todos, espantados, começaram a falar ao mesmo tempo. Breno levantou os olhos, assustado, e perguntou o que faziam em sua casa. Era domingo. Não admitia a "família" em sua casa aos domingos. Breno levantou da poltrona e percebeu que algo estava errado em sua cabeça. Passou a mão na nuca e descobriu a fenda aberta. Olhou para os parentes e, sem cerimônia, fechou o zíper que possuía no local. A filha mais velha desmaiou ao ouvir o ruído do zíper. Os netos correram para o avô. O genro do qual ele menos gostava ficou imobilizado como estátua. Breno arrumou o cabelo grisalho da cabeça e caminhou lentamente até a porta da casa com os netos agarrados em suas pernas. Eles faziam festa. Com muita educação levantou a filha pelas mãos. Ela, atônita, não conseguia dizer nada. Olhos vidrados no pai. Breno conduziu-os para fora da casa. Quando não havia mais ninguém em sua sala, sussurrou: - "Voltem no sábado. Domingo não é dia para família."

sábado, 22 de agosto de 2009

O frio no estádio vazio

Não havia mais jogos naquele estádio do fim da rua. O clube da cidade não atraía multidões. Aliás, nunca atraiu. O fato é que quando eu era pequeno aquele era o palco de muitas alegrias. O time da casa, o mandante, mandava mesmo. Não perdia um jogo. Mesmo quando veio uma seleção de jogadores famosos. Não representavam o país, mas eram famosos. Jogavam por milhares de cruzeiros quando isso queria dizer alguma coisa. Jogavam de pé. Era muito raro ver um jogador se lançando com as travas da chuteira na posição horizontal. A televisão chegou e ninguém se precipitou até o fim da rua para ver novamente uma partida de futebol.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ouvido Surdo

O barulho da metrópole não entra mais por estes ouvidos surdos. Um tampão, dois tampões. Não terminaram as obras nas avenidas largas da cidade. Um espaço curto muito longo entre a sanidade e a insanidade. Eu fiz um caminho diferente hoje. Evitei o metrô - alguém morreu, acho, e não fui eu -, evitei aquela outra via mais difícil. Peguei o caminho mais longo entre dois pontos - uma reta? - para cair na minha área - mano - e atravessar a porta de casa, hoje, iluminada. A síndica colocou lâmpadas novas nas garagens novas. Agora, a luz está debaixo do telhado - o lugar onde deveria estar -, não acima, como de costume, pós-obra - existe esse hífen? -, pós-barulheira infernal. Eu pago um dízimo muito caro para viver debaixo de um teto digno. Agora que atravessei o meu portal, retiro os tampões que ganhei do Virgílio, filósofo-control-cezista-cevista. Aliás, os vídeos que ele me deu - junto com os tampões - me seriam muito úteis, se os conseguisse inseri-los sob as pálpebras. Nem dos tampões eu sentiria falta. Rock'n Roll.

domingo, 16 de agosto de 2009

Bingo Eleitoral

11, 13, 15, 25, 45, 50, 65... com números como esses não tá difícil alguém gritar "bingo". Acho que o senhor sentado na última fila de cadeiras está prestes a gozar. Digo, bingar. Creio que todos os números fazem parte de sua cartela. Creio que ele ganhe quando todo mundo perder. Parece um mágico. Sobre sua mesa, uma cartola descansa. Juro que vi umas orelhas brancas de coelho saírem dela por alguns segundos. Eu estou alucinando, só pode. Ele possui um escudo na lapela, de alguma confederação, será de trabalhadores? será de empresários? Ah, sim, agora vejo melhor. Não é só um escudo, são vários, de várias agremiações. O típico eleitor cujo o voto tem peso de milhar, de milhão em eleição.

sábado, 15 de agosto de 2009

Contatos e Chaves

Um agente secreto não precisa de chaves. Os contatos, peões da vida real, são mais eficientes que chaves para entrar em corações e mentes. A informação e a contra-informação figuram diariamente em jornais e tevês como margarinas e manteigas, para todos os gostos.

sábado, 8 de agosto de 2009

Uma pedra no sapato

Não era algo saudável correr pela rua descalço em pleno verão. Não era algo higiênico pisar em poças amareladas ou no lixo esparramado em via pública por uma população cada vez mais consciente, ambientalmente falando, ironicamente escrevendo. Mas ele tinha um problema no sapato. Uma pedra que se recusava a abandonar o conforto do sapato ortopédico. Lançou-se em fuga, descalço mesmo, rumo ao trabalho. No meio do caminho percebeu que não era dia útil. Não precisava mais correr. Parou, respirou, sentou. Do meio-fio começou a pensar como chegara àquilo. Correr descalço numa cidade grande não é exemplo, nem divertido. Não sabia se era sábado ou domingo, mas sabia que não tinha que ir trabalhar. Já estava sufocado pelos intervalos de segunda a sexta. Trabalhava numa bolha das dez às dezenove. Cobrava e era cobrado. A família já não o aguentava. Estressado, dormia noite e dia. Cansado, no máximo, batucava o teclado em busca de uma fuga da realidade. Construindo períodos percebeu que nem ali conseguia fugir do real, do assustador mundo real. A pedra do começo desta história não estava em seu sapato. Estava em sua cabeça.

sábado, 1 de agosto de 2009

Ele comia revistas e jornais

Parou em frente à banca. Olhou, olhou, olhou. Nada achou. A barriga roncava, a barriga rosnava. Enfiou as mãos nos bolsos em busca de dinheiro: notas ou moedas. Não havia o suficiente para comprar uma revista, apenas para um jornal sensacionalista quase que gratuito. Três moedas foram o bastante. Já na capa viu que a publicação estava fresca. Não, não era tinta. Era sangue. Uma chacina estampada na capa. Ele, vampiro, saiu durante o dia para matar a sede. Sede de sangue, digo, de notícias. Saiu da banca com o exemplar nas mãos, desceu a rua e foi para casa. Sentou no sofá para degustar, digo, ler as notícias. Cada foto mais colorida que a outra. Com a vista cansada dormiu ali mesmo, embrulhado nos ossos que sobraram do jantar, digo, nos classificados sobre veículos.