domingo, 29 de março de 2009
Telefone Mudo
O telefone toca. Eu fico mudo, mas não mudo a expressão. Há cobranças do outro lado da linha. Eu paguei o pão que o diabo amassou. Espero o troco. Ele não vem. Eu digito os números. Estou bloqueado. Eu gravo conversas. Eu pago contas. Eu explico. Eu converso. Eu tenho paciência. Eu repito. Eu grito. Eu anoto. Eu perco a paciência. Eu choro. Eu anoto um protocolo. Eu sou um protocolo. Eu pergunto o que fizeram com o meu protocolo. Meu protocolo não existe. Eu não existo. 23 dias de bloqueio. Eu mudo de telefone? Telefone mudo.
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Telefone,
Terapia da Palavra
domingo, 22 de março de 2009
Oco Ócio Criativo
Ócio. Ocioso.
Ânsia. Ansioso.
Canção. Maciota.
Eu vou. Não volto.
Retorno. Alguém.
Você. Não sei.
Oco. Cheio de nada.
Nada que mergulhe.
Um suspiro preso.
Em garganta aberta.
Sangue.
Tipo O.
De Oco.
Ânsia. Ansioso.
Canção. Maciota.
Eu vou. Não volto.
Retorno. Alguém.
Você. Não sei.
Oco. Cheio de nada.
Nada que mergulhe.
Um suspiro preso.
Em garganta aberta.
Sangue.
Tipo O.
De Oco.
sábado, 14 de março de 2009
Do beleléu à casa-do-caralho
Espreito essas expressões no intuito de descobrir para onde mando algumas coisas ruins. Sei que, de repente, não mais que de repente, alguma coisa boa vai para o beleléu. E que, não gostando, mando-a para a casa-do-caralho. Beleléu, por exemplo, poderia ser algo como a versão "censura livre" da casa-do-caralho, mas acabou representando um túmulo infantil de coisas esquecidas, tanto que virou assunto de vários livros infanto-juvenis. Ignoro a localização dos dois. Quando descobrir, volto aqui e deixo um mapa.
sábado, 7 de março de 2009
Gotas de granizo
Você sai do metrô mas o tempo está escuro como no túnel. Gotas dispersas, volumosas, caem sobre os ombros. Parecem pedras, pedras líquidas de granizo. O gelo dói e molha onde lhe acerta. A cabeça, protegida, guia para longe da estação chuvosa. O caminho é curto, mas as gotas lhe fazem perceber que o quanto antes não existe. O corpo já está molhado, os cansados de caminhar, a mente fechada para novas experiências. Você só quer chegar. Chuva em BH trás uma celeuma. É um acontecimento especial para cada um daqueles que moram perto ou longe, na região centro-sul ou na Pampulha. Gotas de granizo não cabem em copos de vidro. Se levantar a cabeça o mínimo que for, perderá um dente, quem sabe dois.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Ouvindo funk no metrô
Parado estava eu de pé no vagão de sempre quando surgiu uma brecha e um assento. Ouvia no meu tocador de músicas uma estação que não era de metrô, Estación México, de Manu Chao. ¡Carajo! Um sujeito começou a tocar um funk atrás do outro no meu lado. - Aí, bicho! Tu não tem fone de ouvido? Pra quê? Ouvi expressões racistas do tipo: "Seu branco filho da puta", "Eu não gosto de branco", "Vai tomar no cu, seu branquelo". Ah, o cara que ouvia essas modas sobre roubo de carro, violência, era negro. Não tinha nada a ver com cor, etnia ou o diabo às quedas. Tinha a ver com a porcaria do funk tocado em modo alto-falante tão alto que nos meus fones não ouvia Clandestino, nem Desaparecido, nem La Vida Tómbola. Cara, eu me estresso, mas me divirto nesses embates discutindo individualidade e coletividade, particular e público. Minha esposa conhece até minha expressão facial quando algo me desagrada e começo a sugerir mudanças no ordenamento de pessoas dentro de ônibus. O Jornal do Ônibus, em edição antiga, já havia sugerido que os usuários facilitem o acesso das pessoas nos veículos ocupando primeiramente o salão traseiro. Imagine se eu começo a fiscalizar o uso dos assentos reservados a idosos, deficientes e gestantes. Que problema que eu teria!
domingo, 1 de março de 2009
Botei um bloco na minha rua. De concreto. No carnaval não passa folião, nem trio elétrico.
Em Escritores Que Não Escrevem
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Se um dia peguei em armas
Foi para extinguir-me. Ouvi a rebentação do rio em noite noturna amazônica. Cantei uma ode à madrugada presente e fui dormir a cabeça em travesseiro duro no chão de uma palhoça. Já vivi em tantos lugares. Já fui tantos. Hoje sou pouco. O suficiente para escrever um sentimento de despreparo para a vida. Eu rondo os mistérios do meu ser com medo de ficar de fronte a uma arma novamente. Sinto minhas pernas cambalearem, mas uma força me leva em frente. Uma vontade de fazer parte de uma execução. Uma bala na cabeça em dias de Corpus Christi. Já fui herói. Não sou mais.
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Corpus Christi,
Terapia da Palavra
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Grito
Matei o grito com silêncio. Perturbador. Olhei em volta e não mais havia silêncio, apenas um ruído, baixo. O ruído continuou por horas não contadas em relógios de paredes até que abri a gaveta, a última do armário mais alto, mais velho, e encontrei um novo grito, mais alto, mais velho do que aquele outro. Coloquei-o na garganta e fiz reverberar em grunhidos silenciosos e descompassados. Ainda sinto uma vontade de gritar, mas em silêncio vou levando a vida.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Vermelho como os teus olhos
É o sangue. Dentro dos olhos, marejando, diluindo a visão. Vermelho como os teus olhos nunca vi. Talvez um dia, em verdes prados, ostente na penumbra de uma árvore solitária um sorriso branco que contraste com o vermelho, reluzindo um recomeço de história. Que o sangue, derramado em lágrimas, desenhe um coração em teu peito, pedindo passagem no curto espamo de um palpitar. Não seja infeliz em comunidade, seja feliz em solitude.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Do tipo que não manda flores
Olá, como vai? Eu vou indo. E você, tudo bem? Já dizia o Chico. Eu não sou do tipo que manda flores. Não abro porta de carro, pois só ando de ônibus. Eu sofro da síndrome do marido-que-não-compra-presente-pra-esposa. Um dia, quiçá, ela me leve pra jantar. Nossa filha pretende fazer jornada tripla. Quer ter três empregos: médica, estilista e... não me lembro o último. Espero que não seja empregada, seja uma trabalhadora ciente dos seus direitos ou uma empreendedora, expressão-função tão em voga. Quem sabe, quando ela crescer, compre um carro-emissão-zero que voe por aí e leve papai e mamãe pra passear num lugar que não seja shopping center. Hoje ela questionou. Dois finais de semana seguidos que frequentamos um estabelecimento desses. No próximo, oxalá, caminhemos num dos parques da cidade. Sou do tipo interiorano, que olha pra árvore como se fosse algo sublime. Eu acho sublime. Passarinho cantarola, eu sorrio. Defecou em mim, eu fico puto. Lanço impropérios e xingo até a formiga que, tranquila, trilha um caminho de parede. Amanhã pretendo acordar cedo, mas conhecendo-me, reconheço, é mais fácil um camelo... você sabe o resto. Pois então... amanhã é dia de ver Pimpão na televisão. Será que o jogo vai ser transmitido? Vou lá na rede navegar. Inté.
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